segunda-feira, 27 de julho de 2009

O uso da crase

Não. A crase não “caiu” com o acordo ortográfico, embora isso tenha sido muito falado por aí. Muita gente tem dúvidas quanto ao seu uso e existem vários truques para decorá-lo. Mas, se entendermos por que ela ocorre, tudo pode ficar muito mais simples.

A palavra crase vem do grego crasis e significa “mistura”, “fusão”, “contração”. Na língua portuguesa a crase é indicada por acento grave basicamente quando há duplicação da vogal a. Melhor dizendo, na contração: 1) da preposição a com o artigo definido a(s); 2) da preposição a com a inicial dos pronomes demonstrativos aquela(s), aquele(s), aquilo.

Por isso, para saber se há crase, é preciso constatar se os elementos da frase pedem preposição e também o artigo definido feminino “a(s)”, ou, então, se há necessidade de preposição antes dos pronomes citados acima.

Uma dica para constatar a necessidade de preposição, caso fique difícil verificar a regência verbal, é substituir o a por outras preposições, como para, de, em, por. Já o artigo definido feminino a, como o nome indica, ocorre apenas diante de palavras femininas. É por isso que a crase ocorre diante de palavras femininas e não ocorre diante de palavras masculinas, pois estas últimas pedem o artigo definido masculino “o”, que quando unido à preposição “a” forma “ao”.

Daí vem a regra prática: para saber se há crase substitua a palavra feminina por uma masculina. Se for preciso colocar “ao”, também será necessário colocar “à”. Vamos lá:

Você foi a/à exposição? Podemos pensar que “quem vai, vai a/para algum lugar” e por isso precisamos da preposição a. Também percebemos que o substantivo feminino “exposição” pede o artigo definido a, o que nos leva à crase. Então: Você foi à exposição? Para comprovar, podemos usar a regra prática e substituir a palavra exposição por uma masculina: Você foi ao museu?


Também é preciso ficarmos atentos à concordância. Ou seja, se a palavra feminina estiver no plural, o artigo definido que a acompanha também deverá estar. Assim, usamos Você foi às exposições? Ou Você foi a exposições? No primeiro caso, a crase existe, é uma contração da preposição a com o artigo as, e temos a sensação de que as exposições são conhecidas dos interlocutores. No segundo caso, não há crase, pois usamos apenas a preposição a, e temos a impressão de que os interlocutores mencionam exposições de um modo geral, sem determiná-las (ou defini-las).

E diante de verbos no infinitivo? Se prestarmos atenção, veremos que não ocorre na língua portuguesa artigo definido feminino (nem masculino) antes de verbos no infinitivo. É por isso que não há crase nestes casos. Quando houver vogal a, ela terá função sintática apenas de preposição, sem estar acompanhada de artigo. Vejamos: (A) A partir de hoje não comprarei mais seus brinquedos. (B) Ele voltou a frequentar inferninhos.


Pelo mesmo motivo, não há crase diante de pronomes pessoais (Dei todo o meu dinheiro a ela.), dos pronomes demonstrativos esse(a)/este(a) (Você voltou a esta espelunca?), de pronomes indefinidos (Solicitei o documento a uma advogada.), de formas de tratamento que não sejam senhor e senhora (Entrego a Vossa Excelência minha lealdade.), dos pronomes relativos que e quem (Eram essas as poltronas a que me referia, entregue-as a quem quiser.), de nomes de lugar não precedidos de artigo (Iremos amanhã a Terezina. – Neste caso, temos: Estamos em Terezina. Apenas com a preposição, sem artigo.), da palavra casa no sentido de próprio lar (Voltou logo a casa.), da palavra terra no sentido de solo (O nadador quase chegara a terra.), nas locuções formadas por palavras repetidas (Ficamos frente a frente apenas uma vez.), nas expressões cristalizadas formadas pelo adjetivo meia (Estavam a meia luz quando cheguei.), entre outros.

as expressões que indicam horas, como às 9h, e as locuções adverbias, prepositivas e conjuntivas constituídas por substantivos femininos levam crase, como à vista, à frente, à deriva, às claras, à queima-roupa, à medida que, às vezes, entre outras.

Devemos, porém, ficar atentos a casos como o de Filé à camões. Temos a impressão de um caso de crase diante de palavras masculinas e ainda sem respeitar a concordância nominal. É porque aqui a palavra moda da expressão à moda está subentendida, e é como se disséssemos: Filé à moda de Camões.

Em algumas ocorrências o uso da crase é facultativo, como diante de pronomes possessivos (Ele veio ontem à/a minha loja.) e da preposição até (Caminhamos até à/a festa, depois ficamos conversando até as/às 3h.).


Vimos aqui alguns casos do uso da crase, com o intuito principal de demonstrar o porquê de sua formação, e não de elucidar caso a caso. Se houver alguma dúvida, poste um comentário!


(Fontes de pesquisa: Nova Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha e Lindley Cintra, ed. Lexikon; Manual de Redação e Estilo do Estado de S. Paulo, Eduardo Martins, ed. Moderna; Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, José Carlos de Azeredo, ed. Publifolha; Manual da Redação da Folha de São Paulo, ed. Publifolha; Manual de Redação e Estilo do Globo, Luiz Garcia (org.), ed. Globo.)

6 comentários:

  1. Olhe, na linguagem usual, até na formal, a crase
    não irá alterar em nada o entendimento seja fala ou texto, deveriam abolir seu uso.

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  2. É certo escrever daqui a pouco ou daqui à pouco?

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    1. Pelo que eu entendi, é somente quando tem duas vogais "A" juntas. Exemplo: Visita à exposição.

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